sábado, 15 de dezembro de 2012

Diários de Cuba - 23 y O


Parou de repente na esquina. Perguntou se eu me lembrava dele. Disse que estava feliz, tinha sido pai naquele dia. Sorrindo, disse que devia pagar um refresco ali no bar em frente, para comemorar. Começamos a caminhar. Ele me disse que lhe faltavam 2 pesos para ir até o hospital. Ele para em frente ao bar e me olha. Digo que tenho que seguir. Ele sacode os braços enquanto fala, o cheiro de álcool se espalha pelo ar. Deixo claro novamente que não lembro dele, não passei pelo portão 3 do aeroporto. Aceita que não o conheço, pede qualquer moeda. Passo a ter uma reunião no hotel em frente.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

10.000 metros

A satisfação de estar vivo.
O que te parecem as nuvens vistas de perto?

A vida satisfatória.
Será que vai chover?

A vivência da satisfação.
Não te lembram travesseiros gigantes?

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Plano de viagem

Naquele tempo, não davam muita bola para criar filtros para as palavras que usavam. Ele se mostrava inquieto com o mundo.
- Se tivesse tempo, faria um plano de viagem para ti, igual ao Elizabethtown.
Ele sorriu.
Nunca deu tempo.
Os planos ainda existem, mas são rotas distintas.

sábado, 24 de novembro de 2012

A carta, de Eduardo Galeano

Enrique Buenaventura estava bebendo rum numa taverna de Cali, quando um desconhecido se aproximou da mesa. O homem se apresentou, era pedreiro de ofício, perdoe o atrevimento, desculpe o incômodo:
- Preciso que o senhor escreva uma carta para mim. Uma carta de amor.
- Eu?
- É que me disseram que o senhor sabe.
Enrique não era um especialista, mas inchou o peito. O pedreiro explicou que não era analfabeto:
- Eu sei escrever, isso eu sei. Mas uma carta assim, não sei.
- E para quem é a carta?
- Para... ela.
- E o que o senhor quer dizer?
- Se eu soubesse, não precisava pedir.
Naquela noite, pôs mãos a obra.
No dia seguinte, o pedreiro leu a carta:
- Isso - disse, e seus olhos brilharam. - Era isso mesmo. Mas eu não sabia que era isso que eu queria dizer.



A carta, de Eduardo Galeano

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Anuncia o ponto final,
mas, como ainda tem folha,
continua a escrever.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Eu, caminhando por Pelotas.

   Uma cidade que me desperta. Faz aflorar meus sonhos e meus medos. Me faz lembrar meus sucessos, meus fracassos, meus sonhos e meus traumas. Sem pensar, volto. Pego a estrada para voltar. Volto pois tenho compromissos, mas os tenho porque preciso voltar. Volto porque preciso sentir. Caminho por ruas com cheiros de infância, paro em bares repletos de lembranças e vejo paisagens onde escuto novamente palavras que me concederam ouvir. Aqui, algumas paredes guardam meus sentimentos e fazem questão de devolvê-los quando passo.
   Em Pelotas, fico cheio de mim mesmo. Por isso volto, por isso vou embora.

sábado, 17 de novembro de 2012

Você segue as regras,
e acaba preso por elas.
Vai contra todas,
e acaba enlouquecendo.
Sem saber como sair ileso,
opta-se por ir (sobre)vivendo.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

De quando a tristeza ganha (ou os relatos que ouvi sobre a depressão)

Segue-se,
passo após passo.
Firma-se,
o olhar no horizonte.
Esqueço
de ter certeza do que faço.
Não construo,
mais nenhuma ponte.

Sigo.
Uma vez firme para não cair,
esqueço de construir.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Sobre como prosseguir

A cada passo com o olhar no horizonte,
um olhar a menos para o passo de quem passa.
O passo ao lado, constrói uma ponte,
e isso é coisa muito fácil que se faça.
Paralelas que se encontram em cruzamentos,
e se tornam avenidas largas.
Para trilhas escondidas se tem momentos:
há mais olhares correspondidos e sorrisos dados,
quando se pode caminhar lado a lado.



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Avaliação

Vai e vem,
o acaso que diz.
O que pertence e o que não tem?
De tudo que fiz
o problema foi quando duvidei,
ou quando acreditei?

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

E quando vires uma faísca que se distingue de todo o resto, abraça-a.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Na ponta dos pés.

Viver na ponta dos pés.
Pronto para saltar, pronto para partir, pronto para lutar para ficar, pronto para resistir, pronto para abraçar.
Assim, conhecer o tamanho da vida, os cantos do mundo e as possibilidades do destino.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

18 de Outubro, Novo Hamburgo

Centro de Novo Hamburgo, próximo a Catedral, 08 horas.
Passos apressados e atrasados. No sentido contrário, uma jovem mãe caminha de mãos dadas com seu jovem filho. Ele aponta e pergunta. Ela responde e sorri. Caminhando no mesmo sentido, uma mulher baixa vestida quase toda de rosa: olha fixamente para frente, vejo suas costas e seus cabelos balançando. Uma mulher gorda caminha com dificuldades ao lado das obras do metrô: enxuga a testa a cada 5 passos.
Mais a frente, um senhora baixinha carrega uma criança no colo. Esta senhora já não devia carregar crianças no colo e essa criança já não deveria precisar ser carregada no colo. Me pergunto onde vão. A criança dorme, a senhora exala determinação e resignação - intimidade com a vida.

Centro de Novo Hamburgo, próximo a Catedral,13 horas.
Sol forte. Trânsito interrompido. Um operário das obras do trem que atravessam a cidade, ajeita algum material batendo com uma barra de ferro. O som é constante. Um homem de blazer olha para os lados, parece procurar alguém. Muitas pessoas caminham de todos os lados. Duas filas indianas atravessam as obras do metrô. Um casal abraçado observa, de cima da ponte improvisada, o que já foi um rio e hoje em dia é um valão sendo alterado pelas obras.
Embaixo da sombra de uma marquise, uma mulher lê, de pernas cruzadas, sentada em uma cadeira de escritório. 

Centro de Novo Hamburgo, próximo a Catedral, 20 horas.
Caminho quase sozinho, a cidade está quase em silêncio. Enquanto contorno a Catedral, me aproximo de um casal. Eles caminham alguns passos e param. De longe, parecem discutir. A calçada faz uma pequena curva e perco eles de vista. Alcanço-os na frente da escadaria na frente da Catedral. Ela esta sentada em um degrau, ele está em pé. Ele diz que quer entrar. Ela diz "é, sei como tu é religioso". Ele abre a boca, mas parece segurar as palavras. Sigo caminhando. Atravesso a rua, olho para trás: eles ainda estão lá.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Instante rodoviário

Alto, com um boné de promoção enterrado na cabeça, uma camisa xadrez com 10 ou 15 anos, uma sacola amarela em uma mão e uma mala com a mesma idade da camisa na outra. Ao seu lado, uma senhora com um blusão de lã vermelho, muitas rugas e passos lentos. Os dois são acompanhados por uma jovem de calça leg e moletom listrado.


Os três entram no andar superior da rodoviária através da rampa de acesso externa. Olham para os lados, percebem as filas nos guichês e as pessoas esperando nos bancos espalhados pelo saguão. O homem e a senhora se olham. A jovem faz um sinal de ordem com a cabeça em direção a rampa que dá acesso ao andar inferior. Seguem no ritmo do passo lento da senhora que vai no centro do grupo, o homem, mesmo com a sacolas nas duas mãos tenta apoia-la para que caminhe melhor. A jovem segue sacudindo sua sacola, impaciente.

Um homem alto, usando uma camisete de gola V salmão e bermuda verde limão passa o lado deles, em direção aos guichês. Uma senhora elegante, salto alto, calça e capote em tons de marrom, desliga o celular com um semblante triste e passa a visualizar o horizonte.

Escrevo e observo isto sentado em um dos bancos da rodoviária fria. Fones no ouvido tocando a rádio que foi possível sintonizar, algumas malas em volta.



Todos somos passageiros.

sábado, 13 de outubro de 2012

O tempo necessário para construir, a fragilidade e a urgência de cada instante


A construção exige tempo,
O instante exige urgência.
A vida exige conciliação:
Descobrir o tempo em cada instante,
E a urgência em cada construção.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Perguntas de revisão

Prestaatenção.
O tempo ta passando.

Oquetuestasfazendo?
O que te leva ao não?

Vemcáolhaparamim.
O que te faz dizer que sim?

domingo, 7 de outubro de 2012

INANIÇÃO: s.f. Extrema debilidade. Vacuidade, estado do que é vazio.

Rostos conformados,
rostos já sem vontade,
outros cheios de determinação
e alguns sem expressão.

Fico indignado,
tento a verdade,
mostro admiração,
tento a compaixão.

Da diferença, o medo
do medo, a inanição.
Observo.
Me percebo igual ou menor.
Me sinto privilegiado ou pior.

De quando se ama

Cada sentimento que se tem!
Aceita-se um pouco de dor e tristeza,
por qualquer coisa que te faça bem.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Do que se sente e não se controla.

Sobe de repente, instantaneamente, parece que se liberta deixando um vazio no peito e um nó na garganta. O nó na garganta é possível controlar, para que não se transforme em palavras ditas, ou liberte as lágrimas. Mas isto sempre tem um efeito colateral nos olhos, que perdem o pouco brilho que carregam, e encaram a vida sem firmeza alguma. Uma tristeza que não dói, e assim se torna mais forte. Porque a dor dá um caminho a seguir, a tristeza oprime.




Texto do dia 6 de Janeiro, revisado.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Dor, sentimento e leveza.

Ás vezes dói, e não se pode falar de outro assunto.
Ás vezes sente, e não consegue pensar diferente.
Ás vezes leve, e se vislumbra outro mundo.
Sempre que dói, fica difícil de olhar para frente.
Sempre que sente, se atrapalha e fala absurdo.
Sempre que leve, vê facilidades e felicidades.
Por vezes dói e sente, e não lembra de quando leve.
Por vezes leve e sente, e não lembre de quando dói.
Por vezes dói e leve, e então, apenas sente.

O próximo passo.

Há gente que não hesita:
Firmes ou não,
mantém o passo sempre adiante.
Passo cego,
não percebe os passos ao lado,
os passos irmãos.
Quase sempre distante,
do passo para frente:
provavel que diferente,
dos passos que vão adiante.


Talvez a gente esteja na contramão.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012
















ADAPTAÇÃO

Adaptar-me ou adaptar?


































quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Me perco pensando em como o passado virou presente.

O por vir nem sempre é nosso,
mas eu ajudo a desenhar o teu,
e tu dá palpites no design do meu.











Por algum motivo, a trilha sonora deste post: http://www.youtube.com/watch?v=85Ys1wb_vjo&feature=related

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Pedido de restituição

Prezada,

desculpe o incomodo de lhe escrever. A questão é que estou longe, não há outro modo de fazer.
Já se trocou outras cartas mais emocionantes, mas desta vez preciso apenas lhe fazer um pedido:

Por favor, não se assuste, não se engane. Não é nada com teu sorriso, teu cheiro ou teu isso, teu aquilo.
Uma busca me agonia: procurei em todos meus armários e arquivos, em meio aos meus escritos e livros, filmes, fotos e risos. Chego a conclusão que esqueci. Eu voltei, ela não veio. Devolva, por favor. Pode, inclusive, ser pelo correio. Traga na minha porta, avise que esta devolvendo, ou aperta a campainha e sai correndo. Pode avisar que eu vou buscar, ou traga até aqui.

Por favor, preciso da leveza que deixei por ai.

Obrigado.

Assino com um pouco de saudades e um tanto de peso,

a mistura foi feita.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Das decisões para se seguir em diante.

Saltando de sensação em sensação,
descobrindo que é sentimento e que é instinto.
Geralmente aceitando o que não for razão.
De verdade em verdade, às vezes me minto.
Que todo mundo precisa de alguns desvios para seguir em linha reta.

sábado, 8 de setembro de 2012

Das soluções de todos os dias

  Chamam superação. Alguns já chamaram até de milagre. Sempre me pareceu um pouco de egoísmo: questão de não perder o poder de ação. Paga-se o preço que é preciso. Com muitas ajudas, orações, bastante de companheirismo, boas energias e leveza, mas sempre sabendo que se tem que pagar a conta.
   Quando se vive sem confiar no corpo, se tem que querer tudo que se faz. Da-se sempre um jeito de fazer. Inesperado e incalculável é o preço que cobram a mente e o coração por segurar tudo isso.
   Tem dias que é mais dificil de ganhar essa briga.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Hoje.

Hoje vi uma garota com o cabelo da mesma cor que o teu.
Hoje ouvi e comecei a cantar uma música que tu me mostrou.
Hoje passei por um vizinho fumando, era o mesmo cigarro que tu fuma.
Hoje percebi que nos misturamos, enfim.
Mesmo que nada mais faça sentido, a mistura foi feita.
Tem dias que vem com cheiro de nostalgia.

domingo, 22 de julho de 2012

tento escrever de novo.
me leio.
o texto faz parecer que tenho 15 anos.
Digo,
         penso,
                     ajo,




Passo por alguma alegria,
Mas só faço fugir da poesia:

























cansei da dor.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

sobre como vais me encontrar a qualquer tempo

Quando não-apaixonado, sou mais critico e sagaz.
Quando apaixonado, acabo por sorrir mais.
De nenhuma forma é provável que me encontres em paz.


terça-feira, 24 de abril de 2012

E assim vou tocando a vida

Sinto,
                    e muito.

                    e somente.
Não ajo,
                    por agir:
sinto desejo
                    de sentir.    

Das coisas que acredito. (ou mais um plágio da Helena)

Eu acredito nos momentos. E acredito nas palavras. Acredito nos momentos e no que eles dizem sobre as pessoas. E acredito nas palavras, que atravessam os momentos de um jeito que levam alguns deles por anos com a gente. Acredito na caça de momentos que são escritos por sorrisos. E acredito nas palavras capazes de criar estes sorrisos. Seja de que tipo eles sejam. E assim, acabo acreditando nos sorrisos, já que as palavras os criam e eles escrevem os momentos. E sim, acredito em palavras mudas, que sempre significam mais e geram os melhores sorrisos, que registram os melhores momentos: aqueles silenciosos com sorrisos brilhantes. Acredito em escolher as palavras certas para cada momento. Rezo por isso. Também tenho medo de falar outro idioma que tenha menos palavras. Mesmo que falar português seja, por vezes, muito chato. E, que no fundo, sejam necessárias poucas palavras. Mas é que acredito nelas tanto quanto acredito nas pessoas. E cada pessoa tem uma história para contar. As palavras também. E, como eu dizia, acredito nos momentos, tem alguns que eu poderia descrever além das palavras e dos sorrisos: posso sentir a luz, o cheiro e o toque. Tem outros que a memória esqueceu, acho que foi porque faltaram sorrisos e palavras. E tem palavras que ecoam por todo o sempre, mesmo que não tenham sido ditas. E acredito que acredito em tudo isso pelo simples fato de por vezes parar para recordar e contar histórias. E conta-las de momento em momento, sorriso em sorriso, palavra por palavra. Por fim, acredito em histórias. Vivo a persegui-las.







ps: devo dizer, para que a justiça seja feita, que mais uma vez plagiei (vulgo inspirei-me) a Helena. leiam ela aqui: http://hmoschoutis.blogspot.com.br/

ps: Helena, fazia tempo que não te lia, coisa que pretendo não fazer nunca mais.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Entre saber e sentir.

eu já não me lembro como eu era antes daquele beijo.
eu já não me lembro como eu era antes daquele jogo.
eu já não me lembro como eu era antes desta dor no joelho.
e também não me lembro como era antes deste aperto no peito.

Por vezes parece que simplesmente cai aqui.
E tenho que carregar tudo o que não recordo.
Por vezes parece que este peso é de algo que não vivi.
E tenho que lidar com medos herdados.

Sei de tudo.
Mas já não me lembro.
Vive-se as consequencias.


E os efeitos colaterais.

Sonhos, obviedades, conforto e desconforto.

O quanto de tempo na vida, gastamos caminhando em direção ao sonho?
Por mais relativo que seja o tempo, sem falar na ainda mais relativa definição de sonho, o que se faz no tempo em que se nega o que se desenha à nossa frente?
Pois isto é sonhar: negar a realidade e as possibilidades que se apresentam.
E o mais adaptado é que sobrevive.
Onde fica a fonte do desejo de novo?
Se os caminhos que se apresentam são leste e oeste, como decimos ir para o sul?
Negar o óbvio sempre parece revolucionário e, provavelmente, saudável. Mas as vezes o óbvio funciona e agrada.
No final, vai valer todo o desconforto?
Me parece que quem se mantém confortável sorri mais tempo. Ainda que por vezes não conheça o motivo.
O detalhe cruel é que uma vez desconfortável, só o movimento conforta.

Alegres os confortados.
Felizes os desconfortados que conseguem o próximo passo.
(Mesmo que não se tenha certeza do final. )

domingo, 1 de abril de 2012

O sorriso no topo da lista de sorrisos

    Com essa minha mania de avaliar a vida através de sorrisos, chego a conclusão de que o melhor deles é aquele que nasce pura e simplesmente do prazer de ver outra pessoa sorrir.
    Despreendimento, não desapego. Desapego traz inveja do sorriso, despreendimento é celebração da liberdade. Liberdade maior é sorrir ao ver sorrir.

sábado, 17 de março de 2012

Hoje passaria toda a noite olhando para o céu.

Hoje passaria toda a noite olhando para o céu.
Pois tudo parece tão triste.

A noite toda, olhando para o céu.
Pois a tristeza vem tão forte quanto a antecessora alegria.

Olhando para o céu.
E pensando. Talvez alegrias menores gerem tristezas menores.

Olhando.
E apenas sentindo.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Instantes.

    Descobri por que eu gosto de futebol. Não de torcer, isto eu nunca entendi (só se explica com uma palavra: paixão). De jogar.
    Até hoje eu achava que era só pela adrenalina, por aquele cansaço prazeroso, de gosto de missão cumprida. Só hoje, depois de perceber que provavelmente nunca vou jogar novamente, compreendi o que sempre me fez tão bem.
    Durante o jogo, e até na certeza de que virá o jogo seguinte, se aprende sobre a vida. Ou eu aprendia. Se aprende sobre erros que tem consequências, e também aqueles que acabam por não resultar em nada. Se aprende o sabor de alcançar o que se deseja. Se aprende que o próximo lance (ou o próximo jogo) sempre será uma chance de melhorar, de se superar, de superar outros e inclusive de ensinar algo que já se aprendeu em outros lances e jogos. Nunca fui dos mais habilidosos, mas sempre dos mais dedicados. E assim sou com a vida. Ainda não sei se jogava assim por causa da vida ou vivo assim por causa do jogo. Hoje eu apostaria na segunda opção.
    Já tive câncer. Algumas pessoas me elogiam pela minha paciência e resignação no tratamento. Percebi que aprendi a encarar assim em todas as vezes que me machuquei jogando bola. Abraço da mãe na dor, fala do pai me proibindo de desistir quando pensei nisso. Do mesmo jeito que tem vezes que parece melhor desistir de tudo.
    Mas isso tudo não é o motivo de eu ter iniciado este escrito. Quando se joga futebol, por alguns instantes, por mais insignificante que seja, tudo permanece suspenso. Todo o resto é colocado em um plano abaixo da quadra ou do campo. A bola está rolando até o pé daquele atacante que se sabe que não vai errar; o teu lançamento está chegando ao companheiro de time; o chute está indo até o alvo certo; o amigo que quase nunca acerta está fazendo um golaço. É difícil encontrar este sentimento na vida, pois na vida ele só é possível por motivos muito mais nobres: quando atingimos um objetivo de anos; quanto percebemos que fizemos algo bom para alguém; quando percebemos que estamos apaixonados; quando aprendemos algo novo e bom; quando alguém grita ação e o ator se torna outra pessoa, o cenário e o figurino estão bonitos e a luz perfeita.
    Este sentimento que é tão fácil e rápido no futebol, é difícil e tão rápido quanto na vida, porém, a facilidade que se encontra ele no futebol faz com que seja mais difícil esquece-lo. Coisa que é fácil de acontecer na vida. Vivem tristes aqueles que esquecem.
    Repetindo: falo de quando todo o resto parece estar em um nível mais abaixo. Nos sentimos leves e o olhar se fixa em um único ponto. Algo como quando nos apaixonamos e olhamos fixamente para o sorriso da outra pessoa, ou quando uma música faz todo o sentido e só conseguimos olhar para o cantor e gritar junto. Isso acontece em todos os jogos de futebol. Perceba, em algum instante, rapidamente, um dos jogadores estará com os olhos brilhantes e fixos.
     Tentei jogar de novo, faz menos de uma semana. Meus joelhos não me deixaram passar da terceira corrida. Doeu e chinguei os remédios que provocaram o problema neles. Mas nas duas corridas completadas e em alguns lançamentos enquanto fiquei como goleiro, senti.
Se nenhuma outra solução aparecer, não vou poder aceitar a dor em troca de uma partida de pelo resto da vida. Por isso, acho que nunca mais vou jogar. Mas vou tentar não esquecer esses instantes.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sacadas

31 de Outubro publiquei isto:


De tudo que assusta e foge do controle.



Da sacada se vê o Sol se perder atrás dos prédios da cidade. Logo o céu faz desenhos por detrás deles em todos os tons de vermelho. A noite traz um vento leve e discreto. Da sacada sinto vento em meu rosto e observo os desenhos no céu serem tomados pela noite. O vento é leve mas nos toma aos poucos. Balança as roupas do varal, e sem que se possa perceber, enquanto o céu distrai com seu ballet de cores, ele perturba todos os sentidos. O vento sopra aos poucos mas não para de soprar. Se apresenta desimportante; um mero desconforto, talvez até uma brisa que chega na hora certa. A brisa envolve o corpo e aos poucos é só o que se pode perceber. Esfria o coração e acelera o pensamento. Sequestra o pensamento. Ocupa a mente. Cria um vazio dentro do peito, como um poço que secou. Aperta a garganta, como algo que deve se transformar em grito. Acabo por gritar. Sem perceber o que grito. Quando me chega o eco, o vazio aumenta e o aperto sufoca. E fico assim, até que o sol volte, misture as tintas por um dia inteiro e por fim volte a pintar um belo quadro com todos os tons de vermelho. Até que a noite venha e traga um vento, leve e discreto.


Agora, escrevo de outra sacada:

Da arte de buscar o caminho.


Da sacada se vê o céu espalhar suas nuvens de todas as formas. Nuvens negras formam um bloco negro e crescente à esquerda. Ao centro, acima de grandes árvores, algumas nuvens se movem: elas possuem o centro de um cinza muito escuro e as bordas, menos densas se pintam por ora de rosa, por ora de um vermelho muito claro. A direita fica a obra prima do dia: o sol se põe atrás de algums nuvens baixas e negras, ele se põe enquanto se esconde. E é desta posição que o sol ilumina as nuvens mais altas de um vermelho ainda mais bonito que os das nuvens do centro, esse vermelho conta com o contorno de um céu amarelado, um pedaço do céu que não quis aceitar o cinza do dia.
Agora, desta sacada, ainda escrevo com um vazio, mas não sinto mais o aperto. Observo os desenhos do anoitecer e o movimento das árvores em busca da certeza que me fará firmar o passo. Talvez encontre, talvez faça as malas.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

De mudanças, sentimentos e o sentido da vida.

Acredito que a vida é sempre, sempre surpreendente e quem não tem isso como verdade deve se esforçar muito para nunca mudar. E quem se esforça para nunca mudar só tem um tipo de mudança na vida: a perda. Não sei se tenho que enfrentar mais ou menos mudanças que as outras pessoas, só sei que não é fácil para mim. Também sei que quando as coisas são fáceis, enjôo delas logo.
Não sei quanto erros ainda vou cometer, sei que vou senti-los todos, mas que logo alguma coisa vai me fazer prosseguir. Já senti a morte próxima, já senti a vida próxima e por vezes apenas procuro o que sentir à minha volta. Tenho certeza de que não tenho a menor ideia do que virá, mas tenho certeza de que será gratificante senti-lo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Tem coisas que durante o tempo que passa se calam e adormecem.
Tem coisas que se calam porque são esquecidas. Essas vale a pena despertar, dar-lhe voz outra vez: oportunidade para sorrisos, gargalhadas, lembranças e (re)aprendizado.
Porém, tem outras coisas que se calam porque lutamos muito para deixa-las quietas e conquistar um pouco de paz. E essas são perigosas. Provavelmente tu já teve que fazer isso: adormecer alguma coisa para que se consiga caminhar. Então, por favor, cuidado ao despertar algo que adormeceu a força, que caiu de cama por coma induzido. Tem que valer a pena, tem que ser para consertar o que passou ou ajudar a ajeitar o que acontece agora. Se for para despertar por despertar, ai é maldade.

Ou vontade de voltar.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Do baú.

Texto meu que encontrei durante a mudança. Todo o desejo de resolver o mundo entre os 15 e os 17 anos.


Que amanheça a ideia.
Que mude o mundo.
Deixando tudo claro.
Que torne absurdo.


O pior é que ainda concordo, mas não tenho mais essa vontade de gritar.

domingo, 8 de janeiro de 2012

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sobe de repente, instantaneamente, parece que se liberta deixando um vazio no peito e um nó na garganta. Só quando chega até garganta é possível controlar, para que não chegue até a boca, ou liberte as lágrimas. Mas isto sempre tem um efeito colateral nos olhos, que perdem o pouco brilho que carregam, e encaram a vida sem firmeza alguma. Uma tristeza que não dói, e assim se torna mais forte. Porque a dor dá um caminho a seguir, a tristeza tão só, apenas oprime.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Seca

Secou. Pensei eu.
depois de tudo que se deu,
percebi o rio secar.

Comecei a dissecar,
a vida inteira,
parte e reparte,
parte inteira, parte meia.

Percebi o motivo da seca:
barragem erguida na fonte,
a cada erro, a cada medo.
Deixei-a assim: imponente. 
Sorri, sem voz.
Farei a fonte transbordar
e a correnteza chega mais forte na foz.